A construção do espaço geográfico: trabalho, técnica, cultura e poder

Tornou-se um lugar comum na Geografia dizer que esta estudo o espaço geográfico. E é aceito amplamente que o espaço geográfico é historicamente produzido pela sociedade. A produção do espaço geográfico pela sociedade é compreendida a partir da relação ou interação desta com a natureza, por intermédio do trabalho (ação produtiva) e da técnica (meios, modos e instrumentos de trabalho).
Nessa versão generalizada da produção do espaço o homem, organizado em sociedade, se apropria e transforma a natureza através do seus trabalho em vista de satisfazer necessidades. Esta forma de compreender o espaço geográfico como socialmente produzido é bastante problemática, restritiva e empobrecedora. Há claramente aí uma exclusão ou secundarização das demais relações sociais como as relações de poder e as relações sócio-culturais. Portanto, há uma redução das relações de produção às relações de trabalho e uma redução da produção do espaço à relação sociedade e natureza (ou homem e meio, em algumas versões). Podemos dizer que na teoria mais disseminada da produção do espaço é marcada pela centralidade conferida ao trabalho e à técnica e, também, às relações capitalistas de produção – visto como um modo de produção construído a partir da Europa.
Uma sociedade não se organiza primeiro para depois produzir o espaço geográfico, ou vice-versa. Toda sociedade ao se constiuir enquanto tal constitui “seu” espaço geográfico. Por outro lado, sociedade e natureza não são termos que se excluem e não podem ser compreendidos numa relação de causalidade unilateral, seja da natureza para a sociedade, seja da sociedade para natureza. A natureza exerce sempre uma co-ação na sociedade, é coagente, age com a sociedade, ou seja, não é uma base, um suporte passivo para ações dos homens e mulheres.
Desse modo, o espaço não é produzido somente através dessa interação sociedade e natureza. O espaço é construído e constituído por relações sociais, pelas relações que os diferentes seres humanos estabelecem entre si, dentro de um grupo ou comunidade (uma formação sócio-espacial) e relações com “outros” grupos e comunidade, amistosa ou conflituosa. Não se produz espaço geográfico por uma relação direta e indireta da sociedade sobre uma base natural tão somente, já que esta ação não tem sentido nem efeitos sem a simultânea que homens e grupos estabelecem entre si. As sociedades se formam e organizam constituindo um espaço através de relações sociais e de poder; relações sociais de produção (atividades que sob o capitalismo tomam o nome de trabalho), relações sociais de exercício do poder e de resistência e relações sociais de produção de significações imaginárias.
Vamos utilizar um exemplo, correndo o risco da simplificação. As sociedades que os europeus conquistadores chamaram de indígenas, que viviam no espaço que estes europeus chamaram de América, construíram o “seu” espaço geográfico. O geógrafo Milton Santos diz que este constituía um “meio natural”, mas em realidade era um espaço geográfico, apesar de as alterações que estas sociedade provocaram por centenas de anos na “natureza” não terem sido expressivas. O que leva Santos a definir esse espaço geográfico como meio natural é seu centralismo técnico – nas técnicas usadas e desenvolvidas pelas sociedades européias, ocidentais, capitalista e modernas. Evidentemente que as sociedade indígenas criaram e desenvolveram técnicas (na construção de habitações, instrumentos e armas; no uso medicinal de plantas e animais; no cultivo de produtos, como o milho e a mandioca; na confecção de canoas, etc), mas todas estas eram inseparáveis da cultura. O espaço geográfico produzido pelas sociedade indígenas – e em grande parte destruído pela colonização européia –, assim como por toda sociedade, envolvia o trabalho (caça, pesca, plantio e coleta), as técnicas (instrumentos e modos de realizar atividades produtivas), a cultura (festas, danças, músicas, rituais, cerimônias, narrativas, costumes, normas) e o poder (governo, guerras, controle de território). As atividades relacionadas ao trabalho e com intermédio de técnicas não são as principais e nem as mais importantes na produção do espaço geográfico pelas sociedades indígenas. E nem em nenhuma sociedade assumem tal centralidade e primazia que os geógrafos lhes atribuem.
A separação entre homem e natureza também é própria da cultura ocidental capitalista moderna. Por isso a “natureza” não é uma base material independente de nossas ações e significações. A natureza é sempre “produzida” social e culturalmente de maneira diversa. Ao nomear uma natureza em exterioridade e oposição ao homem já se está produzindo uma natureza, pelo significado que essa concepção lhe atribui. Ou seja, esta materialidade natural, na qual não se exerceu nenhum trabalho humano (de apropriação e modificação direta) é apropriado simbolicamente. A sociedade produz em relação a esta uma rede de significados, valores e relações que de diversas maneiras determina o modo como esta natureza pode ser apropriada, dominada e transformada materialmente pela produção e pelo poder. Porque não há produção do espaço sem produção de significados e exercício do poder.
Compreendemos assim que o espaço geográfico é produzido por cada sociedade (ou cultura) através de relações sociais de produção – não somente trabalho – e de poder e resistência. Estas relações sociais e de poder não apenas constroem o espaço como constituem o espaço geográfico desde o início de sua produção e sempre. Encontram-se, geralmente, objetivadas no espaço em forma de objetos e significados técnicos e culturais, ao mesmo tempo estão incorporadas em instituições e nos corpos dos homens e mulheres na forma de valores, costumes, crenças, hábitos, conhecimentos, normas. etc. Por falar em conhecimento, toda produção do espaço envolve saber. Ao produzir(-se) as sociedades produzem um saber, e como sabemos toda produção é produção de espaço, podemos então dizer que toda produção do espaço é produção de saberes espaciais. Desde o início as sociedades produzem o espaço geográfico como materialidade (para seu abrigo e reprodução), como um magma de significações imaginárias – cultura -, como espaço de exercício do poder e da resistência.
A produção do espaço geográfico envolve sempre a apropriação, transformação e domínio material e simbólico da “natureza”, através de atividades produtivas, das técnicas e da cultura – uma natureza concebida de modo muito diferente pro cada sociedade. Ao mesmo tempo, essas interações sociedade e natureza (sendo que a natureza atua também na produção do espaço geográfico) são marcadas pelas relações de poder/saber. Desde o começo, todo tempo e em todo lugar o espaço é produzido politicamente, tanto em função, por exemplo, do regime de propriedade, quanto em função do domínio, controle e das resistências que se estabelecem entre os homens e grupos sociais por meio do espaço, o que muitas vezes se conduz aos conflitos e guerras.
O espaço produzido e simultaneamente governado e significado. Se as técnicas definem a capacidade de uma sociedade de alterar o pedaço de natureza com que se relaciona, esta capacidade e modo de alteração depende sempre da cultura. Se a cultura e técnica definem uma mediação na relação sociedade e natureza, na produção do espaço, esta mediação apenas se realiza através de relações de poder que definem o uso das técnicas e a produção de significados. O espaço é sempre produto, condição e meio de relações de produção, relações de poder e relações culturais.
Não é só o trabalho e a técnica que atuam na produção do espaço geográfico, com os instrumentos e modos de produzir, também a cultura e o poder atuam na produção do espaço, ou seja, servem de intermédio e mediação nas relações dos homens entre si e da sociedade com a natureza. sem a cultura não se pode compreender o desenvolvimento das técnicas e seus usos sociais. O poder e a cultura fazem com que determinadas condições técnicas sejam criadas pelas sociedades. Sociedades diferentes criam e usam as mesma técnicas de modo diferente, produzindo espaço diferentes. Algumas técnicas criadas por uma sociedade são utilizadas de maneira completamente diversa por outras, em vista das finalidades políticas e segundo seus valores culturais. É o que aconteceu com o uso da pólvora pelos europeus, por exemplo. Uma invenção cultural chinesa – estes a usavam para fogos de artifício – a qual os europeus deram um uso militar, produzindo armas de fogo.
Portanto, não é apenas as atividades deliberadas e racional do trabalho que produz o espaço geográfico. Uma trabalho é uma das atividades produtivas (já que as atividades relacionadas ao poder e à cultura também são produtivas, produzem espaço) e não se pode dizer que seja a mais importante, a principal, pois em toda sociedade o modo de produzir (que não visa apenas satisfazer necessidades, como também prazeres e interesses, aspirações e desejos) está vinculado com o modo de governar e modo de vida. Ou seja, as ações políticas e as criações culturais são inseparáveis da produção econômica-material. E aquilo que se denomina de “necessidades”, que o trabalho visaria satisfazer são também produzidas política e culturalmente pela sociedade.
O próprio trabalho pode ser interpretado como uma necessidade social e cultural produzida. São as relações sociais e de poder que produzem o que se chama de necessidades (vestir, calçar, morar, comer, beber, amar, se reproduzir), de acordo com as respostas das sociedades às condições naturais, que podem ser técnica e culturalmente superadas. Mas, as sociedades também produzem necessidades e produzem produtos para satisfazê-las que não dizem respeito à proteção, nutrição e reprodução dos corpos humanos. São necessidades relacionadas à busca do belo, à busca de prazeres, à espiritualidade (relação com o sagrado), à realização do amor, etc. Não é o trabalho necessariamente que satisfaz tudo isso e nenhuma sociedade vive sem artes, sem religião, sem sexo e amor. Pelo trabalho e por meio das técnicas se constrói o palácio do governo e o templo dos deuses, mas é o governo que exige e determina o modo de construir (com trabalho escravo, com servidão ou com trabalho assalariado) e a cultura que define o modelo das edificações (clássico, barroco, rococó, etc).
Desse modo, sugiro que além da técnica e do trabalho (produção econômica) ao se construir o conceito de espaço geográfico como produzido pela sociedade, deve levar em conta a cultura e o poder, sem que haja uma primazia ou precedência epistemológica, ontológica ou lógica entre estes. Podemos usar como exemplificação das relações de poder na produção do espaço as formas que as sociedade estabelecem o governo através da apropriação, domínio e controle do espaço e das resistências; as guerras são os momentos e os modo em que as relações de poder entre povos é mais explicita na produção (pela destruição, muitas vezes) do espaço. Podemos também usar como exemplificação das produções de significados na produção do espaço as festas (profanas ou sagradas), através do modo como as sociedades representam para si o mundo, do modo como vivem. As festas também, em cada sociedade, levaram a produção de espaços específicos para suas realizações, bem como agentes hegemônicos as utilizaram como meio de dominação ideológica – as festa romanas, as festas religiosas, as festas/espetáculos modernas.

Edir Augusto Dias
(O texto pode ser trabalhado com educandos do 1º ano do ensino Médio para construir um novo conceito de espaço geográfico, que leve em conta a) as ações da natureza, b) as relações de produção, c) a cultura e d) as relações de poder – além das técnicas e do trabalho. Estarei em breve publicando nesse espaço sugestões didáticas para a construção desse conceito mais “integrado de espaço” através de filme, músicas e poemas. Estou também fazendo uma pesquisa sobre o tema, através do modo como os livros didáticos re-produzem um conceito de produção do espaço geográfico centralizado na técnica e no trabalho. Assim que concluir disponibilizarei um artigo nesta página).

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